Em 1986, um grupo de mergulhadores uniu-se para fazer nascer a Reserva Natural Parcial do Garajau, a primeira reserva marinha em Portugal. Nessa altura, a missão deste coletivo corajoso foi impedir a progressiva desertificação dos fundos marinhos do litoral da Madeira e, por outro lado, contribuir para o repovoamento faunístico das áreas adjacentes.
Entre este grupo de amantes da natureza estava o alemão Rainer Waschkewitz, um dos grandes impulsionadores desta iniciativa, conta-nos a nora Carlota Waschkewitz, que, juntamente com o marido, Felix, são os atuais responsáveis pelo Centro de Mergulho Madeira Diving Center, uma empresa familiar que está em atividade há 45 anos.
Localizada maioritariamente no município de Santa Cruz e conhecida pela elevada limpidez das águas, permitindo observações a mais de 20 metros de profundidade, a Reserva do Garajau possui uma biodiversidade significativa, com especial destaque para a sua riqueza em espécies de peixes. Pela localização geográfica, riqueza biológica, águas translúcidas e paisagens circundantes selvagens, a área tem um elevado potencial de uso recreativo, mas também educativo e científico.
Assume-se como um dos principais santuários para a prática de mergulho amador na Madeira, atraindo pessoas de todas as partes do Mundo, que chegam ao Garajau com muita vontade de descobrir o que o mar esconde.
Não obstante, ao longo de uma extensão de cerca de 376 hectares, pode também ser encontrada neste sítio emblemático uma abundante flora endémica, entre a qual se destacam o massaroco (Echium nervosum) e a figueira-do-inferno (Euphorbia piscatoria).
São várias as espécies que habitam a Reserva Natural Parcial do Garajau, nomeadamente a espécie de peixe mero, ou a ave garajau-comum. Por ali também é frequente observar o lobo-marinho, nome dado na Madeira à foca monge da espécie Monachus monachus.
Mas no que toca ao mar, Carlota Waschkewitz explica-nos que, caraterizado “por um fundo rochoso de origem vulcânica, a maior atração são, irrefutavelmente, os meros (Epinephelus marginatus)”.
“Os clientes que vão pela primeira vez ao Garajau ficam encantados com esta espécie e com o seu comportamento. Como estão numa zona protegida, [estes peixes] costumam aproximar-se dos mergulhadores, e é, de facto, uma experiência inesquecível.” A conexão estabelecida, nas profundezas das águas silenciosas do Atlântico, com os praticantes de mergulho é tão grande que “alguns têm nomes”, diz-nos Carlota Waschkewitz.
“O mais famoso era o Elvis que, infelizmente, já faleceu. Muitos estrangeiros ainda vêm à procura de o ver. Neste momento, podemos encontrar o Toni, o Inglês, o Buda, entre outros.”
Ainda assim, havia um badejo-amarelo que marcou, durante muitos anos, a vida marinha na Reserva do Garajau. “Entre 1980 e 2006, de setembro a abril, aparecia este peixe muito carismático, que era uma delícia para os mergulhadores.”
Em 2021, o arquiteto Ricardo Bak Gordon lançou, em formato digital, o Museu da Extinção Marinha, para educar o público em geral sobre a importância da biodiversidade nas seis áreas marinhas protegidas do arquipélago da Madeira, entre as quais se inclui a do Garajau, estimulando a consciência para a necessidade de proteger as espécies, para que não se extingam.
Para explorar o fundo do mar, além do Madeira Diving Center, o Atalaia Centre e a Focus Natura são outras duas empresas locais que garantem uma experiência de mergulho para todos os níveis, entre outros serviços, como passeios guiados de kayak, aluguer de equipamento de snorkel e aluguer de SUP e kayak.
Os jardins envolventes ao Cais da Oliveira são ainda um ponto de referência para a observação de aves, como a manta (Buteo buteo harterti) e o francelho (Falco tinnunculus canariensis).
A riqueza deste local é incalculável e torna-se urgente protegê-la. Nesse sentido, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) leva a cabo o projeto LIFE Natura@night, que tem como principal intuito a redução e mitigação do impacto da poluição luminosa nas áreas protegidas dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias.

