O arranque de mais uma temporada do restaurante Brisa do Mar, no histórico Reid's Palace, a Belmond hotel, fez-se como manda a tradição: à mesa. E não de forma discreta. Um jantar de quatro pratos, harmonizados com vinhos, marcou a reabertura deste espaço sazonal, onde a gastronomia se cruza com uma envolvente difícil de replicar: o Atlântico ali mesmo, aos pés, a luz dourada do fim de tarde e a música ao vivo a compor o cenário.
Foi neste ambiente que se juntaram duas cozinheiras com percursos distintos, mas uma visão comum da cozinha: Zélia Santos, residente, e Noélia Jerónimo, convidada especial para um jantar a quatro mãos, que celebrou a diversidade e a riqueza da gastronomia portuguesa.
O Brisa do Mar tem um contexto singular na hotelaria madeirense recente. Instalado num terraço literalmente sobre o oceano, foi pensado como uma experiência “al fresco”, onde a envolvente natural é tão importante quanto aquilo que chega ao prato.
O espaço combina descontração e sofisticação num equilíbrio cuidado. A cozinha aberta aproxima clientes e equipa, tornando o processo culinário visível e parte integrante da experiência. Ao lado, um lounge e bar prolongam a noite com cocktails e música.
A sazonalidade é, aliás, central à sua identidade. Aberto tipicamente entre a primavera e o outono, o Brisa do Mar tira partido do clima da Madeira para oferecer uma proposta que vive do exterior, da luz e da paisagem. Mais do que um restaurante, é um lugar pensado para ser vivido com tempo.
A cozinha de Zélia Santos: produto, identidade e consistência
À frente do projeto está Zélia Santos, uma chefe madeirense cujo percurso se fez dentro do próprio Reid’s Palace. Começou como cozinheira de terceira, passou por diferentes cozinhas do hotel, incluindo o antigo Les Faunes e o Villa Cipriani, e construiu, ao longo de anos, uma base técnica sólida que hoje se reflete na sua abordagem.
Assumiu a liderança do Brisa do Mar em 2024, num momento que descreve como de “responsabilidade” e “orgulho”. A proposta que apresenta assenta numa ideia clara: valorizar o produto local, respeitar a sazonalidade e trabalhar a tradição portuguesa com uma leitura contemporânea.
No menu, essa filosofia traduz-se numa cozinha de sabor direto, onde o ingrediente é protagonista. Peixe e marisco frescos ocupam um lugar central, mas não exclusivo. Há espaço para pratos de conforto, carnes e receitas que evocam memória, reinterpretadas com subtileza. Exemplos como o ceviche da Madeira, a salada de lulas confitadas ou a perna de pato com cuscuz regional ilustram essa combinação entre território e técnica.
A influência mediterrânica surge de forma natural, sem sobrepor a identidade portuguesa. O objetivo não é reinventar, mas afinar, dar precisão, leveza e contemporaneidade a uma base reconhecível.
Noélia Jerónimo: autenticidade e instinto
A presença de Noélia Jerónimo neste jantar de abertura trouxe ao Brisa do Mar uma outra geografia gastronómica: o Algarve. Com um percurso iniciado muito cedo (começou a trabalhar aos 14 anos) e construído de forma autodidata, tornou-se uma das figuras mais respeitadas da cozinha portuguesa.
O seu restaurante, aberto em 2007, consolidou uma reputação assente na consistência e no respeito absoluto pelo produto. É frequentemente descrita como “cozinheira dos chefes”, um reconhecimento vindo dos próprios pares.
Tem uma cozinha marcada pela simplicidade aparente e pela intensidade de sabor. Trabalha com o que o dia oferece, privilegia ingredientes frescos e constrói menus que mudam com naturalidade. Mais do que técnica exibida, procura emoção e autenticidade.
No contexto deste jantar, a sua abordagem encontrou eco na de Zélia Santos. Diferentes origens, mas um ponto comum: a valorização do produto e a recusa de excessos.
Conversas de cozinha: exigência, percurso e realidade
O encontro entre as duas chefes foi também uma oportunidade para refletir sobre o percurso na profissão. Sem centrar o discurso em rótulos, ambas reconheceram à Essential a exigência do caminho.
Zélia Santos fala de pressão, de necessidade constante de provar valor e de gerir expectativas, internas e externas. “É preciso ser muito forte e saber equilibrar”, resume, sublinhando a importância de não se deixar levar nem pelos elogios nem pelas críticas.
Noélia Jerónimo, com mais anos de experiência, destaca sobretudo a dificuldade prática da profissão: horários exigentes, impacto na vida pessoal e a necessidade de persistência. Fala de escolhas, de ausências e de um percurso feito de determinação.
Há também uma leitura crítica sobre as novas gerações. Para Noélia, o desafio atual não é tanto encontrar chefes, mas cozinheiros dispostos a começar pela base. “Toda a gente quer mandar, mas ninguém quer limpar o fogão”, observa, apontando para uma desconexão entre expectativas e realidade.
Zélia Santos confirma essa ideia através do seu próprio percurso, feito de progressão gradual dentro da estrutura do hotel. Um caminho que, hoje, sustenta a liderança que exerce.
Uma experiência que vai além do prato
O Brisa do Mar não se esgota na cozinha. A sua programação inclui eventos, jantares temáticos e colaborações que mantêm o espaço dinâmico ao longo da temporada. A música ao vivo e os DJ sets, em noites selecionadas, acrescentam uma dimensão social que complementa a proposta gastronómica.
Mas é talvez na soma de todos os elementos que o restaurante se distingue: localização, ambiente, serviço e cozinha articulam-se para criar uma experiência coerente. Há uma sensação de leveza, de verão prolongado, que atravessa tudo desde a carta à forma como o tempo parece abrandar à mesa.
Um serviço de olhar atento
O serviço reflete a qualidade do espaço. É jovem, descontraído e conjuga seis nacionalidades, afinadas numa mistura entre diversidade e consistência. Há um sorriso à chegada, um bar com uma carta de cocktails e muitas outras bebidas e uma atenção ao detalhe. A equipa de sala é liderada por Petra Ferreira, que também tem um percurso profissional feito no hotel.
As mesas organizam-se ao longo do terraço, sempre com vista para o oceano e para a baía do Funchal. No Brisa do Mar é possível respirar o ar marítimo e acompanhar o entardecer. Também é possível usufruir apenas do bar e beneficiar de a vista, num miradouro onde a famosa Clementine Churchill, esposa do estadista britânico, se deixou fotografar, em 1950.
Entre tradição e contemporaneidade
No panorama da restauração madeirense, o Brisa do Mar ocupa um lugar particular. Não procura ser vanguardista no sentido mais radical, nem se limita à reprodução da tradição. Situa-se num ponto intermédio, onde a identidade portuguesa é respeitada e atualizada com sensibilidade.
O jantar de abertura, com Zélia Santos e Noélia Jerónimo, foi uma expressão clara dessa abordagem. Duas cozinhas, dois percursos, uma mesma ideia: cozinhar com verdade, com produto e com intenção.
Num espaço onde o mar está sempre presente, essa verdade ganha ainda mais força. Porque, no fim, é isso que fica: o sabor, o momento e a memória de uma experiência que se constrói muito para além do prato.

