Ver e Fazer

Um passeio com vista para o mar

Paisagens, praia, promenade, restaurantes, bares e serenidade… tudo se conjuga num só local, o Caniço de Baixo.

Autoria Cláudia Caires Sousa|Fotos Miguel Nóbrega

O dia foi marcado pelo vento quente que dançava com a vegetação e dava carácter ao azul-escuro do Atlântico. Quem se desloca até ao Caniço de Baixo arrisca-se a encontrar estas condições atmosféricas. Ainda assim, vale a pena deixar-se conduzir por este polo turístico, em crescimento desde a segunda metade do século passado, que convida a um passeio exploratório.

O Miradouro do Cristo Rei é um ponto de partida natural. Dali, a vista prolonga-se sobre o património natural do Garajau, alcança parte da baía do Funchal e abre-se sobre o Caniço de Baixo. A imagem de Cristo de braços abertos, erguida em 1927, por iniciativa de Aires de Ornelas, filho do último morgado do Caniço, continua a ser até hoje uma referência histórica e visual da costa sul da Madeira.

A partir deste miradouro, a descida conduz à Praia dos Reis Magos, um pequeno reduto de calhau rolado, integrado numa área de reserva marinha parcial. O mar de águas claras atrai mergulhadores e praticantes de snorkeling, que exploram os fundos protegidos. Mas é também um ponto de encontro entre locais, onde a proximidade ao oceano se cruza com os sabores da restauração instalada nas imediações. Restaurantes e bares servem peixe fresco, marisco e outras iguarias que se tornam cúmplices perfeitos de uma cerveja bem gelada ou de um copo de vinho branco, enquanto a paisagem ajuda a prolongar o momento.

Seguindo adiante, impõe-se a promenade. O traçado junto à costa transformou-se num eixo estruturante, ligando diferentes pontos e permitindo que o mar esteja sempre presente. O piso regular convida a caminhadas tranquilas ou a corridas, mas também a pausas em bancos estrategicamente colocados para observar o horizonte. Para os moradores, é um espaço de lazer quotidiano; para os visitantes, um prolongamento natural da experiência turística. Esta frente marítima é o fio condutor que aproxima a paisagem do uso diário, onde o Atlântico marca o compasso da vida.

Ao longo do percurso, nota-se a presença alemã, herança da chegada de operadores ligados a esse mercado nas décadas de 1970 e 80. Foram eles que impulsionaram a hotelaria e estabeleceram fluxos turísticos regulares. Parte desses visitantes acabou por transformar estadias em permanência, fixando residência e criando raízes. O idioma tornou-se familiar nas ruas e a oferta comercial adaptou-se, com menus em alemão e produtos dirigidos a essa comunidade. Esta integração criou um ambiente particular, no qual convivem os hábitos locais com práticas de quem chegou de fora e decidiu permanecer.

As esplanadas ao longo da promenade são convites ao descanso. Ali, uma poncha ou um cocktail criativo encontram tempo para ser saboreados, acompanhados pelo ritmo das ondas. Mais adiante, o percurso aproxima-se da zona do Galo, onde a escala muda. O ambiente é mais residencial e menos marcado pela hotelaria. As formações rochosas dominam a paisagem, servindo de apoio a pescadores e a quem procura momentos discretos junto ao mar. Os restaurantes de menor dimensão reforçam a ligação à comunidade, oferecendo refeições que refletem o quotidiano da freguesia.

O acesso pedonal entre os Reis Magos e o Galo é possível, ainda que marcado por alguns desníveis. O passeio acompanha a costa e revela uma paisagem em constante diálogo com o oceano. No Galo, a vida decorre a um ritmo distinto, mais próximo da pesca artesanal, dos encontros entre vizinhos e da simplicidade das rotinas ligadas ao mar. Este contraste ajuda a compreender a diversidade do Caniço de Baixo, onde o turismo convive com formas de vida enraizadas.

O trajeto revela diferentes realidades. Há quem percorra o passeio para exercício físico, outros combinam a passagem com refeições nos restaurantes locais, enquanto muitos preferem simplesmente deixar-se estar, e contemplar o horizonte. Os bancos instalados ao longo do caminho foram pensados para essa paragem, acrescentando ao percurso um ritmo de pausa.

A evolução recente da Madeira encontra eco neste espaço. De freguesia rural, o Caniço passou a integrar as rotas internacionais do turismo. A presença de investidores estrangeiros, em particular alemães, foi determinante: criaram-se unidades hoteleiras, trouxeram visitantes frequentes e consolidou-se uma comunidade residente que contribuiu para a diversificação económica. Essa transformação alterou a paisagem e a sociabilidade, mas não apagou o legado agrícola nem a dimensão histórica.

Hoje, o Caniço de Baixo é um território que abraça a diversidade. O passado persiste no património e nas memórias da freguesia; o presente vive-se na promenade, nos restaurantes e na convivência entre residentes e visitantes; e o futuro desenha-se na forma como o espaço é reinterpretado diariamente. O eixo que liga os Reis Magos ao Galo concentra essas camadas: o turismo internacional, a vida local, a prática de lazer e a contemplação do mar. O vento que marcou esta visita ao Caniço de Baixo foi apenas mais um elemento natural, a lembrar que este é um lugar que não se esgota na paisagem.

ImageImageImageImageImage
Ad Banner