“Sintam-se na vossa casa”, disse o chefe Filipe Janeiro, de forma entusiástica, no início do evento Gazebo x Bioma, que decorreu na última segunda-feira, na véspera da Gala Michelin Portugal 2026, no Funchal. Naquela atmosfera familiar, criou-se uma experiência entre ilhas que reuniu Açores e Madeira à mesma mesa.
O objetivo era claro: partilhar uma visão comum de cozinha contemporânea profundamente enraizada no território, assente na ligação direta aos produtores, na valorização dos ingredientes locais e em menus que evoluem ao ritmo das estações.
A palavra gazebo, de origem inglesa, designa uma pequena construção com pilares e teto, geralmente instalada em jardins ou parques, pensada como refúgio para descansar ou contemplar a paisagem. Place to Rest – Gazebo era, aliás, como a família de Adrianne Zino, companheira do chefe Filipe Janeiro, se referia à própria casa, que hoje funciona como restaurante.
Instalado numa entrada discreta na Rua dos Ilhéus, o Gazebo mantém esse espírito de refúgio. Entre a casa e o jardim que convida à pausa, o espaço revela um ambiente intimista e familiar, onde a cozinha contemporânea se expressa com naturalidade, sempre ancorada nos produtos da estação e na proximidade com os produtores locais.
O restaurante recebeu um encontro gastronómico que aproximou dois arquipélagos. Sob o mote “uma experiência entre ilhas”, Filipe Janeiro convidou os chefes Franco Pinilla e Rafael Ávila Melo, do restaurante Bioma, na ilha do Pico, para criar um menu a seis mãos que celebrou a ligação entre Madeira e Açores.
A relação entre os dois projetos começou há algum tempo. Filipe Janeiro conheceu o trabalho do Bioma através de um contacto em comum, quando participava no programa Art of Tasting Portugal, para a CNN. A partir daí passou a acompanhar o percurso do restaurante açoriano e surgiu a ideia de aproximar as duas cozinhas. Segundo o próprio, foi uma forma de “trocar energias” entre ilhas.
À mesa, a afinidade traduziu-se num percurso de seis momentos que cruzaram mar e terra, Madeira e Açores. Entre as propostas apresentadas pelo Gazebo destacou-se o coscurão de spirulina, charuteiro, zest de lima e ovas de truta. Do lado do Bioma, o lírio fumado servido com erva-patinha, vinagrete de araçás e cebolas em curtume trouxe sabores profundamente ligados ao Atlântico.
O percurso gastronómico terminou numa nota doce com pitanga, requeijão e macadâmia. Foi uma experiência marcada pela sensação de travessia entre arquipélagos.
Recomendado pelo Guia Michelin em 2025, o Gazebo afirma-se como espaço dedicado a experiências gastronómicas intimistas, onde os menus de degustação acompanham o ritmo das estações. O Bioma, liderado por Franco Pinilla e Rafael Ávila Melo, reflete uma abordagem profundamente ligada à natureza e à sustentabilidade, tendo recebido o Prémio Nacional de Turismo 2025 na categoria de Turismo Gastronómico.
No final da noite ficou evidente a afinidade entre os chefes. Da cozinha aberta exalava cumplicidade enquanto reinterpretavam os sabores autênticos do Atlântico, numa harmonia refletida na sala, onde a maioria dos convidados eram amigos e conhecidos do chefe Filipe Janeiro. O toque final chegou com algumas pitangas frescas do jardim do restaurante, servidas a um convidado que nunca tinha provado o fruto.

